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sexta-feira, 23 de março de 2012

Trajetória do Conceito de Cultura



Se temos a pretensão de definir cultura é urgente conhecer sua trajetória. Serão expostos  a seguir, seis trajetos pelos quais passou e passa o conceito de cultura. Apesar de usarmos o recurso 1ª Fase, 2ª Fase, essa linearidade é fictícia, elaborada assim apenas para auxiliar o entendimento.

1ª Fase:  Vulgar, Sentido Comum (Não-científico)

A palavra vem do latim colere, que definia inicialmente o cultivo de plantas, o cuidado com os animais e também com a terra (por isso, agricultura). Definia, ainda, o cuidado com as crianças e sua educação; o cuidado com os deuses (seu culto); o cuidado com os ancestrais e seus monumentos (sua memória). Passando por todos esses elementos, chegaríamos, finalmente, ao sentido mais comum que o termo possui em nossa sociedade: o de que o homem que tem cultura é um homem “culto”. É aquele que “cultiva” (no sentido de desenvolver, praticar, cultuar) a inteligência, as artes e o conhecimento presente nos livros.

Nesse sentido, cultura é sinônimo de conhecimentos diversos, maneiras corretas, elegância, refinamento, donde se ouve dizer homem culto ou de grande cultura.


A antropologia, como ciência, desenvolveu-se principalmente a partir do século XVIII com a expansão colonial européia. Novos territórios vinham sendo descobertos e ocupados pelas potências européias (principalmente a Inglaterra) e novos povos (considerados primitivos, quando comparados com a sociedade ocidental) eram contactados. Era preciso conhecer e compreender seus hábitos, costumes e valores, principalmente, para melhor dominá-los. A antropologia surgiu, como se pode deduzir, como conseqüência da política imperialista e com o intuito de auxiliá-la. Ao longo do tempo, porém, a atuação dos antropólogos desenvolveu-se de maneira mais independente e num sentido muitas vezes oposto ao que deles se exigia. O estudo do “outro” (outros povos, suas crenças e costumes) passa a se desenvolver no sentido político de mostrar que diferenças culturais não significam inferioridade nem justificam a dominação.


2ª Fase: Concepção Universal de Cultura

A primeira definição científica de cultura é do antropólogo inglês Edward Tylor (1832-1917). Para Tylor cultura é a expressão da totalidade da vida social do homem. Desta forma, ele rompe com a teoria da degeneração que considerava os “primitivos” seres à parte.

Tylor acreditava na capacidade do homem de progredir e partilhava dos postulados evolucionistas do seu tempo. Tentando provar a continuidade entre a cultura primitiva e a cultura mais avançada, se esforçava para demonstrar a inevitável caminhada do selvagem em direção ao civilizado. Entre primitivos e civilizados não há uma diferença de natureza, mas, simplesmente, de grau de avanço no caminho da cultura (evolução).

Para desvendar a passagem da cultura primitiva para a  cultura civilizada, Tylor introduz na etnologia o Método Comparativo, buscando estabelecer estágios de evolução da cultura. O método comparativo também foi usado por Durkheim para estudar as sociedades, afirmava ele que a  sociedade mais complexa, evoluída, é aquela que possui maior divisão social do trabalho. Lembram!?

Evolucionismo:

A antropologia nesta fase servia, a outros interesses além dos científicos, para ordenar teoricamente a expansão do capitalismo europeu ao resto do mundo, desenvolvendo teorias evolucionistas. Os antropólogos procuravam descobrir as diferentes espécies sociais, classificando-as e ordenando-as num contínuo que ia das mais atrasadas e simples às mais adiantadas, evoluídas e complexas. Assim, as sociedades não-européias eram vistas como museus que conservavam vestígios de etapas passadas da humanidade.



3ª Fase: Concepção Particularista de Cultura

Se Tylor é o “inventor” do conceito científico de cultura, Boas será o inventor da etnografia (parte da antropologia responsável pela elaboração de dados obtidos em pesquisa de campo).

Franz Boas (1858-1942) é Alemão descendente de uma família judia alemã. Formou-se em física, matemática e geografia e em 1887 adota a nacionalidade americana.

A formação de geógrafo levou-o a participar de uma expedição entre os Esquimós na terra de Baffin (1883-1884). Partiu como geógrafo, com preocupação de geógrafo (estudar o efeito do meio físico sobre a sociedade esquimó, o que é denominado de determinismo geográfico). Entretanto, percebeu Boas que a organização social era determinada mais pela cultura do que pelo ambiente físico.

Determinismo Geográfico

O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico regulam a diversidade cultural. Boas nega esse tipo de determinismo já que é comum existir uma grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de ambiente físico. Para provar isso basta irmos ao Parque Nacional do Xingu. Os Xinguanos propriamente ditos (Kamaturá, Kalapalo, Trumai, Waurá etc.) desprezam toda a reserva de proteínas presentes nos grandes mamíferos, cuja  caça lhes é impedida por motivos culturais, e se dedicam mais intensamente à pesca e a colheita. Os Kayabi, que habitam o norte do Parque, são excelentes caçadores e preferem justamente os mamíferos de porte grande, como a anta, o veado, o caititu etc.

Toda a obra de Boas é uma tentativa de pensar a diversidade. Para ele, a diferença fundamental entre grupos humanos é de ordem cultural e não racial. Assim, Boas antecipa as descobertas da genética, ao afirmar que o conceito de “raça”, concebida como um conjunto de traços físicos específicos de cada grupo, não resiste a um exame rigoroso. Sendo impossível definir uma “raça” com precisão.

Dedicou-se em mostrar o absurdo da idéia de uma ligação entre traços físicos e traços mentais, implícito na noção de “raça”.  As velhas e persistentes teorias que atribuem capacidades específicas e inatas as “raças” também é chamada de determinismo biológico.


Determinismo Biológico

Por muito tempo se acreditou que um sueco era mais inteligente do que um negro de Moçambique; que os alemães têm habilidades para mecânica; que os turcos são avarentos e negociantes, que os norte-americanos são empreendedores e interesseiros; que os portugueses são muito trabalhadores e pouco inteligentes; que os japoneses são trabalhadores, traiçoeiros e cruéis; que os árabes são terroristas; os ciganos são nômades por instinto; e, finalmente, que os baianos herdaram a preguiça dos negros e dos índios. Se há alguém que ainda crê em tais fatos, precisa reavaliar seus conceitos! Mas, como sabemos que esse tipo de pensamento ainda impera em menor ou maior grau, mesmo após todas as descobertas no ramo da bio-genética e da antropologia social, a única coisa que nos resta é seguir o critério do psicanalista Jaques Lacam “para a babaquice não tem cura!!”


A contrário de Tylor, Boas tinha como objetivo o estudo “das culturas” e não “da cultura”. Boas recusa o comparativismo imprudente da maioria dos autores evolucionistas, para ele há pouca esperança de descobrir leis universais de funcionamento das sociedades e das culturas humanas e ainda menos chance de encontrar leis gerais da evolução das culturas.

Devemos a Boas a concepção antropológica do “relativismo cultural” mesmo que não tenha sido ele o criador desta expressão, a qual aparecerá apenas mais tarde.


4ª Fase: Concepção Funcionalista da Cultura

O funcionalismo foi uma das escolas do pensamento antropológico que mudou a inclinação das teorias evolucionistas, eurocêntricas e etnocêntricas. O principal representante da escola funcionalista é o antropólogo inglês, Bronislaw Malinowski (1884-1942).



Etnocentrismo é o princípio igualmente tendencioso de considerar uma raça como padrão e modelo, ponto mais elevado atingido pela espécie humana.
Eurocentrismo é a tendência a interpretar as sociedades não-européias a partir dos valores e princípios europeus, isto é, tomar a sociedade européia como modelo e padrão.



Para Malinowski o importante não é que o traço esteja presente aqui ou lá, mas que ele exerça, na totalidade de uma dada cultura, uma função precisa. Em toda cultura cada costume, cada objeto, cada idéia e cada crença exerce uma certa função vital, têm uma certa tarefa a realizar, representam uma parte insubstituível da totalidade orgânica.

De acordo, com Malinowski os elementos constitutivos de uma cultura teria como função satisfazer as necessidades essenciais do homem. O indivíduo tem um certo número de necessidades psicológicas (alimentar-se, reproduzir-se, proteger-se etc.) que determinam imposições fundamentais. A cultura constitui precisamente a resposta funcional a estes imperativos naturais.

O grande mérito de Malinowski foi demonstrar que não se pode estudar uma cultura analisando-a de fora, e ainda menos à distância. Não se satisfazendo com as observações diretas “em campo” (feitas por Boas), sistematiza o uso do método etnográfico chamado de “observação participante”.  A “observação participante” trata fundamentalmente de entender o ponto de vista do autóctone (nativo, aborígine, indígena), introduzindo-se no espaço deste.

Outro funcionalista importante foi o inglês Radcliffe-Brown, que, influenciado pelas teorias e pelo método de Durkheim, procurou adaptá-los ao estudo das sociedades não-européias. Como Malinowski, considerava essas sociedades como totalidades integradas de instituições que têm por função satisfazer necessidades básicas de alimento, segurança e abrigo, e da manutenção da vida social.

A Psicologia parece adotar o conceito de Cultura de Malinowski, definido cultura como um conjunto de técnicas para a satisfação de necessidades, e solução de problemas. A cultura consiste em modos tradicionais de solucionar problemas, compõe-se de respostas que foram aceitas porque tiveram sucesso ao serem aplicadas.


5ª Fase: “Cultura e Personalidade”

Alguns antropólogos, considerando que o vínculo existente entre indivíduo e cultura não foram levados em conta, se dedicarão a compreender como os seres humanos incorporam, produzem e vivem suas culturas.

A questão é tornar compreensível como a cultura está presente nos indivíduos, como ela age, que conduta ela provoca, supondo precisamente que cada cultura determina um certo estilo de comportamento. Aí estaria, no entender desses antropólogos, o que distingue a unidade de uma cultura e o que a torna específica em relação às outras.

A discussão central na escola “cultura e personalidade”  é descobrir por quais mecanismos de transformações, os indivíduos de natureza idêntica a princípio, acabam adquirindo diferentes tipos de personalidade, característicos de grupos particulares. A hipótese para tal questionamento é que à pluralidade das culturas deve corresponder a uma pluralidade de tipos de personalidade.

Ruth Benedict (1887-1948) aluna e assistente de Franz Boas, vai dizer que cultura não é simplesmente uma aglomeração de traços culturais, mas, uma maneira coerente de combiná-los. De certo modo, cada cultura oferece aos indivíduos um “esquema” inconsciente para a realização de todas atividades humanas.

Margaret Mead  (1901-1978), orienta suas pesquisas em direção à maneira como um indivíduo recebe sua cultura e as conseqüências que isso provoca na formação da sua personalidade.

Sua pesquisa foi feita na Oceania em três sociedades da Nova Guiné, os Arapesh, os Mundugumor e os Chambuli.

Margaret Mead, mostra que a suposta diferenciação de personalidade masculina e feminina que consideramos universais, por crermos que são de ordem biológica, não existem, como as imaginamos, em todas as sociedades. Sabe-se que algumas sociedades não possuem um sistema cultural de educação que busca opor meninos de meninas.

Entre os ARAPESH, tudo parece organizado na infância para o futuro. O  Arapesh homem ou mulher, é doce, sensível, servil. Enquanto, que entre os MUNDUGOMOR, a conseqüência do sistema de educação é treinar a rivalidade e até a agressão, seja entre os homens, entre as mulheres ou entre os dois sexos. Na primeira sociedade (Arapesh), as crianças são tratadas com afeição sem distinção de sexo; na segunda (Mundugumor), elas são educadas duramente pois não são desejadas, sejam elas meninos ou meninas. As duas sociedades produzem, devido aos seus métodos culturais, dois tipos de personalidade completamente opostos. Entretanto, elas têm um ponto em comum: não fazendo distinção entre "psicologia feminina" e "psicologia masculina", elas não criam uma personalidade especificamente masculina ou feminina.

 Segundo a concepção coerente em nossa sociedade, o Arapesh, homem ou mulher, parece dotado de uma personalidade mais feminina e "o" ou "a" Mundugumor possui uma personalidade mais masculina. No entanto apresentar os fatos assim seria um absurdo, absolutamente imprudente.

Ao contrário, o terceiro grupo, os CHAMBULI, pensam como nós que homens e mulheres são profundamente diferentes em sua psicologia. Mas, diferentemente da nossa sociedade, eles têm a convicção de que a mulher é "por natureza" empreendedora, dinâmica, solidária com os membros do seu sexo, extrovertida; e que o homem ao contrário é sensível, menos seguro de si, muito preocupado com sua aparência, facilmente invejoso de seus semelhantes.

Entre os Chambuli, são as mulheres que detêm o poder econômico e que garantem o essencial da subsistência do grupo, enquanto os homens se dedicam principalmente às atividades cerimoniais e estéticas, que os colocam freqüentemente em competência uns com os outros.

Deste modo, a personalidade individual não se explica por seus caracteres biológicos (por exemplo, como aqui, o sexo), mas pelo "modelo" cultural particular a uma dada sociedade que determina a educação da criança.

Desde os primeiros instantes da vida, o indivíduo é impregnado deste modelo, por todo um sistema de estímulos e de proibições formulados explicitamente ou não. Isto o leva, quando adulto, a se conformar de maneira inconsciente com os princípios fundamentais da cultura.
Este é o processo que os antropólogos chamaram de "ENCULTURAÇÃO".

A estrutura da personalidade adulta, resultante da transmissão da cultura pela educação, será em princípio adaptado ao modelo desta cultura.

As anormalidades psicológicas, presentes e estigmatizadas em todas as sociedades, se explicam da mesma maneira, não de um modo absoluto (universal), mas, de maneira relativa como sendo a conseqüência de uma inadaptação do indivíduo chamado "anormal" à orientação fundamental de sua cultura (por exemplo, o Arapesh egocêntrico e agressivo ou Mundogomor doce e altruísta). Pode-se perceber um vínculo estreito entre o modelo cultural, método de educação e tipo de personalidade.


Enculturação

Qualquer semelhança com a teoria Durkheimiana de fato social (coercitivo, exterior e geral) não é mera coincidência!

Enculturação (ou aculturação ou endoculturação) é o processo pelo qual o indivíduo aprende e assimila os padrões de uma cultura. O termo usado na sociologia é Socialização.

Desde crianças somos condicionados a certos padrões de comportamento aceitos e estabelecidos socialmente. Uma personalidade bem ajustada é aquela que satisfaz plenamente os impulsos pessoais dentro das expectativas permissíveis do ambiente social.
As sociedades não permitem que seus membros hajam de forma diferenciada. Todos os atos, comportamentos e atitudes de seus membros são controlados por ela.

A socialização é o ato de transmitir ao indivíduo, de inculcar em sua mente os padrões culturais da sociedade.

A socialização possui como seu instrumento o controle social que são as formas pelas quais a sociedade introduz os valores do grupo na mente de seus membros, para evitar que adotem um comportamento divergente.

O controle social tem por objetivo fazer com que cada indivíduo tenha o comportamento socialmente esperado mantendo, assim, a ordem social.


6ª Fase: Análise Estrutural da Cultura

Na França o tema da totalidade cultural foi retomando, ainda que em uma nova perspectiva, por Claude Lévi-Strauss, o mesmo define a cultura como:

Processo pelo qual o homem dá sentido a si e a tudo que o rodeia. Esse sentido é dado coletivamente. A cultura não é algo que possui conteúdo em si mesma, e sim, um princípio lógico pelo qual podemos pensar a natureza humana. A cultura diz respeito exclusivamente ao homem. É capacidade humana e só humana de dar sentido a si mesmo e ao outro (= diferente de si). O homem difere do animal porque se define pela função simbólica que torna possível pensar a cultura como um conjunto de sistemas simbólicos — linguagem, parentesco, religião, mito, arte, economia etc. — que estabelecem a comunicação entre os homens em diferentes níveis.

O pensamento de Lévi-Strauss é influenciado pelos antropólogos culturais americanos, entretanto, ele se diferencia deles por procurar ultrapassar a abordagem particularista das culturas, buscando analisar a invariabilidade da cultura.

O esforço da antropologia estrutural de Lévi-Strauss é localizar e reunir as “invariantes”, isto é, os materiais culturais sempre idênticos de uma cultura a outra. Ou seja, encontrar os elementos universais da cultura que são responsáveis para toda a vida social. Para Lévi-Strauss é possível encontrar regras universais, princípios indispensáveis da vida em sociedade.

Está  na natureza do homem a necessidade de viver em sociedade, mas, a organização da vida social depende da Cultura e implica a elaboração de regras sociais. O exemplo mais característico destas regras universais que o estruturalismo analisa é a proibição do incesto, o qual possui como fundamento a necessidade das trocas sociais.

Para apresentar a relação entre a universalidade cultural e a particularidade das culturas, Lévi-Strauss utiliza a metáfora do jogo de cartas:

O homem é como um jogador que tem nas mãos, ao se instalar à mesa, cartas que ele não inventou, pois o jogo de cartas é um dado da história e da civilização [...] Cada repartição das cartas resulta de uma distinção eventual entre os jogadores e se faz à sua revelia. Quando se dão as cartas, cada sociedade, assim como cada jogador, as interpreta nos termos de diversos sistemas, que podem ser comum ou particulares: regras de um jogo ou regras de uma tática. E sabe-se bem que com as mesmas cartas, jogadores diferentes farão partidas diferentes, ainda que limitados pelas regras!

A antropologia teria  terminado sua missão caso tivesse conseguido descrever todas as partidas possíveis, após identificar as cartas e enunciar as regras do jogo. Deste modo, a antropologia estrutural pretende retornar aos fundamentos universais da cultura.

Como viram, definir cultura é bastante complexo! Ao analisar os cinco conceitos científicos expostos, pode-se dizer que, assim como nos clássicos da Sociologia, que não há um conceito exato, universal. Espero que você tenha conseguido capturar aquilo que há de mais relevante em todas as fases,

As Lições da Antropologia Cultural

O debate mais crucial em torno da antropologia cultural é o que se refere à abordagem relativista das culturas, a qual enfatiza a pluralidade das culturas ao invés da unidade cultural. Segundo a abordagem relativista, as culturas são tratadas como totalidades específicas, autônomas entre si, e, conseqüentemente, cada uma deve ser estudada em si mesma, na sua lógica interna própria.

O que fica de lição ou de aprendizagem da Antropologia Cultural é justamente o fato de não ser mais possível ignorar que existem outras maneiras de viver e de pensar e que elas não são manifestações de qualquer arcaísmo ou menos ainda de "selvageria" ou "barbárie". Deve-se aos culturalistas o fato de terem evidenciado a relativa coerência de todos os sistemas culturais: cada um é uma expressão particular de uma humanidade única, mas tão autêntica quanto todas as outras expressões.

Os pesquisadores culturalistas contribuíram muito para eliminar as confusões entre o que se refere á natureza (no homem) e o que se refere á cultura. Eles foram muito atentos aos fenômenos de incorporação de cultura mostrando que até o corpo é trabalhado pela cultura.

Explicavam ainda, que a cultura "interpreta" a natureza e a transforma. Até as funções vitais são "informadas" pela cultura: comer, dormir, copular, dar à luz, mas também defecar, urinar ou ainda andar, correr, nadar, etc. Cada cultura particular determina profundamente todas estas práticas do corpo aparentes e absolutamente naturais. Isto será melhor apresentado por Marcel Mauss, em 1936, em um estudo sobre as "técnicas corporais": não se senta, não se deita ou se anda da mesma maneira em todas as culturas. No ser humano pode-se observar a natureza transformada pela cultura.

Com certeza, os culturalistas não conseguiram esgotar de uma vez por todas a "natureza da cultura” e a discussão continuará aberta. 



Assista ao vídeo com o sociológo e professor da Escola de Comunicação (UFRJ) Muniz Sodré


Muniz Sodré mostra como um determinado pensamento abstrato e teórico sobre a diversidade acaba desviando a atenção sobre a fundamental importância da existência da diversidade. Para ele, somente na diversidade e nas relações que se criam a partir dela, é que podemos montar as redes de afeição e relacionamentos que precisamos para a nova realidade mundial. Muniz também faz um breve resumo da importância dos negros para a nossa cultura e para a criação da diversidade brasileira.



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